3.03.2011

3.01.2011

Ensaio Sobre a Dádiva

Trata-se, no fundo, de misturas. Misturam-se as almas nas coisas, misturam-se as coisas nas almas. Misturam-se as vidas, e assim as pessoas e as coisas misturadas saem cada qual de sua esfera e se misturam: o que é precisamente o contrato e a troca
Marcel Mauss, 1923

2.20.2011

Go for it, Obama!

Parque em Cabul, Afeganistão (1967-2007)
A vaga revolucinária que está sacudindo o mundo arabe já deixa algumas pistas para uma melhor compreensão do que me parece uma onda de boas notícias, inch'allah. Não me refiro ao fato de que aqui no "ocidente" há regimes democráticos, e "lá" estão derrubando autocracias ulrapassadas pelas novas mentalidades locais (ênfase em novas!). Isto vale aqui, porém 68 foi onda que se espalhou tanto sob ditaduras quanto sob democracias burguesas. Por enquanto, algumas coisas que tenho por certas: a primeira, é que uma estabilidade econômica não garante por si só uma estabilidade política: um povo de barriga cheia que não tem dignidade um dia ataca o poder. A segunda é que as revoluções egípcia e tunisina não foram revoluções islâmicas ou islamistas, como referiram os primeiros reflexos europeus. Estes levantamentos têm mais a ver com as barricadas europeias de 1848 do que com Teerão de 1979! Profundamente secularizados, estes movimentos nasceram no seio de uma juventude precarizada que não se revê na revolução dos seus pais. Eis que a predisposição revolucionária ainda encontra nas fileiras juvenis as mais finas flores para o germinar de uma nova primavera dos povos. Primavera esta que não chegará na Europa, enquanto neste velho continente (ou melhor, neste continente de velhos), ainda se falar em "contágio" de revoltas, como se tal fosse doença. A arrogância europeia mostra apenas o quanto estas fronteiras cognitivas estão desenvolvidas, inclusive as da esquerda intelectual - que mais parece um alienígina ( de cabeça grande e corpo pequeno) com prisão de ventre. Mas ainda guardo uma esperança, pois como disse Confúcio, quem não arrota nem peida, está condenado à explosão. 

2.19.2011

"O amor é darmos uma coisa que não temos a uma pessoa que não precisa dela", o filho da puta do Lacan*



Aos que não gostam muito de poemas, lembro que a única diferença entre poesia e prosa, é que na prosa, quem decide onde termina uma linha é o tipógrafo, e não o autor. Prometo que juro que não fui quem disse isso.
Don't know about nothing
 I know there are physics
All I know about it
Is what I know about bodies
All I know about bodies
Is what I know about sex
All I know about sex
Is what I know about love
That's all I know about poetry and
All I know about life,
If all I know about it
Is what I know about death
But knowing nothing about death
So I
Don't know about nothing

2.11.2011

Adenda


O post anterior foi ultrapassado pelos acontecimentos. Com povos não se brinca. Se brinda.

2.06.2011

Não vi a história passar em cima de um cavalo branco, mas vi-a no youtube. O desgoverno é um começo. A indecisão dos militares (que não só sustentam, mas são o regime) pode abortar o andamento revolucionário. Mas aconteça o que acontecer, já passou do ponto em que teremos aprendido um lição. Eis a encaração da violência divina benjaminiana, lembrando-nos que, nos grandes golpes históricos, há sempre um pouco de apocalipse.

1.26.2011


Os abraços por dar

Tenho um vaso pequenino
Que é bonito, porém frágil
Tal poeta anêmico
Chorão em mundo vil

Tenho um pequeno vaso
Que é só meu
Um vento passou
O vaso caiu, em pedaços quebrou

Não sei mais com que maneiras
Colei cada pedaço
Com mel e precaução
Os contornos do meu vaso.

Era novo
De novo
Esse meu vaso (as horas que me faltam não permitem parar aqui)
Mas o vento que voltou, numa corrente
Nele tropeçou

O trabalho foi então em vão
Caiu no chão, com mais falhas
E em migalhas no salão

Recaiu meu vaso
Recolarei meu vaso?
Vida, até quando perturbará
Esse vento o meu vaso?

Recolho o tempo escasso
Já não recolo vasos
E com ele vou quebrado
Nos transportes
Numa rua, a passos largos

Sob olhares de descaso
Com avisos sem, cuidado!
Que vais quebrar teu vaso

Aperto-o num abraço
Invisível, cada vez mais 
Ele é só meu
Impossível que só
Sinto cem pequenos rasgos, quando minto

Vou quebrar cada pedaço
Em outros mais
Muito mais
Para esquecer o quanto fiz
Da sua areia, farei giz.

1.14.2011

Ser livre é lutar contra a compressão do tempo presente.

  04 - Gnossiennes No. 4 by Cardênio Pasamonte 

1.12.2011

1.01.2011

Thomas Hoepker, Magnum Photos

12.31.2010

As vezes é só um recomeço. E é para isso que servem as citações, porque tudo o que é bom, quando se repete muito vira ruim, e o medíocre, quando novo, parece bom, ou algo assim

Have you ever been in love? Horrible isn't it? It makes you so vulnerable. It opens your chest and it opens up your heart and it means that someone can get inside you and mess you up. You build up all these defenses, you build up a whole suit of armor, so that nothing can hurt you, then one stupid person, no different from any other stupid person, wanders into your stupid life...You give them a piece of you. They didn't ask for it. They did something dumb one day, like kiss you or smile at you, and then your life isn't your own anymore. Love takes hostages. It gets inside you. It eats you out and leaves you crying in the darkness, so simple a phrase like 'maybe we should be just friends' turns into a glass splinter working its way into your heart. It hurts. Not just in the imagination. Not just in the mind. It's a soul-hurt, a real gets-inside-you-and-rips-you-apart pain. I hate love." Neil Gaiman
A correção é minha!, pois não sou tão misantropo: isso é coisa de ressaca emocional.

12.08.2010

Processos

Em 1314 houve o maior processo da história. Todos os cavaleiros templários foram queimados em fogueiras que deram asas à imaginação de muitos romancistas, visto que os arquivos do processo do Santo Ofício nunca foram oficialmente abertos.

A Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão fora criada após a primeira cruzada enquanto ordem monástica regular, com a diferença de ser militar: ao invés de rezar e cultivar, o asceta cortador de cabeças infiéis deveria dedicar sua vida à reza e à batalha. Foi provavelmente a companhia militar mais eficiente do ocidente. O objetivo original era o de proteger os peregrinos cristãos no caminho para Jerusalém, o que envolveu também o aliciamento da ordem em guerras sucessivas.

Passemos. É importante notar que esta ordem que nasceu com votos de pobreza acabou por se enriquecer muito ao longo de dois séculos, porque suas habilidades secretas e militares convenceram os príncipes e a própria Igreja, de que eles seriam os melhores guardadores das suas riquezas. De cavaleiros pobres, eles se tornaram uma pseudo-companhia bancária, com uma rede de castelos na zona mediterrânica. 

O rei de França Philippe Le Bel, que se deparou com um rombo fiscal nos cofres do Estado, decidiu que a melhor forma de superar a crise seria confiscar os bens destes templários, que hoje surgem em memórias duvidosas nas mentes maçônicas ou de direita, que gostam de roupas brancas com grandes cruzes vermelhas pintadas no peito. Mas como se "procedeu o processo"?

Após longas negociações com a Santa Sé, o soberano francês e o Papa acusaram a Ordem de praticarem sodomia. Estamos na Idade Média, portanto, todo mundo pra fogueira, que vai rolar churrasco! A prova que usaram na acusação estaria estampada no emblema da ordem: reparem, com efeito,  na representação de dois cavaleiros montando um mesmo cavalo. Vale saber que o significado que os criadores da Ordem quiseram difundir com este símbolo, não era exatamente a promiscuidade, mas sim a pobreza, daí apenas um cavalo para dois cavaleiros. 

Pensem agora no senhor que está na foto do post anterior. Ele está sendo acusado de uma espécie de violação sexual bastante curiosa: não teria se tratado de sexo sem consentimento, mas ele teria convencido a mulher (ou as duas) a fazerem sexo sem preservativo. Parece que uma dessas teve até ligações com a CIA. E viva a internet, mais uma vez. Vai ter churrasco?