8.15.2009

Előbb-utóbb - Sooner or Later





2006, filme hungaro de István Madarász. No fim da IIº guerra, os nazis elaboram um tecnologia cujo produto lhes providenciaria a vitória através de incursões no futuro. Eis a experiência.

8.13.2009

Ricardo Maestro não conseguia mais tirar da cabeça os monólogos contidos nestas fitas recebidas por seu colega Daniel. Havia também algumas anotações de endereços, nomes, e histórias de vidas, todas contidas numa caixa usada de papelão. Sua maior dificuldade era a de relacionar todas essas vidas com o crime brutal, de perfil psicopata, cometido por uma pessoa que não poderia ter alma. Ou poderia. Quem era o entrevistador, sempre mudo? Seria ele quem mandara a caixa para a delegacia? A ronda por todos os endereços resultou inútil. Eram pistas falsas, certamente. A questão era a de poder discernir a verdade na mentira, e para isso ele não podia deixar escapar qualquer detalhe. As únicas indicações palpáveis eram as de que o sujeito autor das gravações devia ser um homem bem cuidado, de classe alta, estudado. Daniel não tinha idéia de onde poderia ter sido enviado o pacote dias antes. O pai de Isabel não parava de ouvir a voz da filha, e algum medo lhe impedia de continuar seu trabalho com a precisão que sempre teve. O marido de Isabel tinha sido encontrado logo depois do assassinato, e entrou em pânico ao saber da notícia. Interrogado novamente após a chegada das fitas na delegacia, foi então espancado por Ricardo, que já suspeitara que o cunhado batesse em sua filha. Depois foi solto, não sabia de mais nada. O delegado precisou da vigilância de seus colegas, pois estava prestes a cometer o pior. O tal cunhado tinha um álibi. Era violento, mas não tinha motivos nem perfil para ter estuprado, sufocado e desfigurado a moça com um tiro de grosso calibre no meio do rosto. A notícia tinha saído nos jornais e chocado o país: mulher de vinte e cinco anos, filha de delegado da polícia, é brutalmente assassinada no quarto de um motel no bairro da Lapa, em São Paulo. Ela foi encontrada nua, amarrada na cama com nós profissionais, e a sua cara estava irreconhecível após os tiros dados à queima roupa. Todos os que estavam presentes no motel foram interrogados. Alguns deles tinham ouvido os tiros, mas ninguém tinha visto o assassino. O nome e o número de registro geral usados pelo suspeito que reservou o quarto eram falsos, salvo os de Isabel, cujo documento fora encontrado no quarto ensangüentado. As câmeras de vigilância não acusaram mais do que a passagem banal de casais que se apavoravam na hora de depor, não tanto pela gravidade do caso em si, e sim pela preocupação de preservarem seus adultérios no anonimato. O delegado reconheceu o colar da esposa falecida, aquele que Isabel nunca deixara de usar desde que o tinha herdado. Ele recusou todas as entrevistas aos jornais, que o difamaram, e atrapalharam na investigação. Mandou como de praxe o corpo para o Instituto Medico Legal, mas tal era o estrago na ossatura craniana, que os médicos penaram em certificar a ordem das feridas. Ricardo usou então de sua influencia convicta para mandar arquivar o caso, enterrar o corpo com pouca cerimônia, e seguir assim uma investigação informal, seu assunto pessoal. Depois de ter esbofeteado um jornalista que estava de plantão parado frente à porta de seu apartamento, sua imagem, agora pública, começou a ser espalhada como sendo a da vítima mais violenta da semana. Ele não gostava disto, e odiava jornalistas. Ao saber que estavam começando a investigar sobre seu passado, Ricardo saiu de seu escritório com sua .45 carregada, caminhou com passos furiosos pela avenida São João, até entrar na sala do editorialista responsável, arrebentando as portas e uma perna do jornalista indiscreto. Quando este lhe perguntou desesperado se o homem não tinha escrúpulos, Ricardo respondeu com o puxar do gatilho, e o burocrata logo se adiantou: esqueça tudo o que eu disse, apagarei tudo o que tenho. Com este assunto encerrado, voltou para seu escritório, sentou, e chorou.
Foi então que Daniel aparecera com a caixa nas mãos, dizendo que tinha recebido aquilo de manhã, e que deveria conter muitas pistas, senão a solução do caso, mas que seria um enorme quebra-cabeça para montar. A caixa tinha vindo com um bilhete imprimido, uma mensagem: para Ricardo Maestro, de um amigo. Amigos. Ricardo era de poucos amigos. Teve no passado, alguns bons, outros piores, alguns artistas, companheiros de luta, perdidos, traídos, traidores, alguns mortos, outros agora ricos e políticos, outros torturados, ou como ele, esquecidos querendo se esquecer. Quem poderia então querer ser seu amigo? Para quê? Amigo ou não, esta pessoa procurada parecia mais alguém que queria comprar uma briga qualquer, era o primeiro suspeito. O caderno do sonhador estava entre as outras peças da caixa, e sua caligrafia era difícil de ser decifrada. Bastou, no entanto, uma noite de insônia para poder ler e tomar algumas anotações, que apesar de lhe parecerem irrelevantes, algum interesse o fez agarrar-se a meros detalhes oníricos de um estranho, como se aquilo aliviasse sua tensão. Ao todo eram mais de quinze sonhos rabiscados e contados nos mínimos detalhes, sem pudores de esconderem passagens eróticas ou qualquer pulsão supostamente criminosa. Era mal escrito, mas cada estória tinha qualquer coisa que cativava a atenção de Ricardo. No final, pareciam contos incoerentes de um homem demasiado comum, com seus medos e suas paixões, como todo sonho. Às oito da manhã Daniel entra no escritório de Ricardo para saber como andavam as escutas:(continua)

8.07.2009

No Pasa Nada




Midas - homem rico?



Midas foi um lendário rei da Frígia que, tendo hospedado Sileno, companheiro bêbado de Dionísio, teve a oportunidade breaca de fazer um pedido como quem encontrou a lâmpada, e desejou que tudo o que ele tocaria se transformasse em ouro. Ao perceber que aquilo também se aplicava á comida, pediu para desfazer a tal cagada. Assim, teve que se lavar nas aguas auríferas do rio Pactolo. Dizem as más linguas que Midas capturou Sileno, e para descobrir qual era o segredo de sua sabedoria, embebedou-o misturando vinho na agua de uma fonte. Embriagado, Sileno teria dito a Midas que o melhor para o homem era de não ter nascido, ou uma vez vivo, de morrer o mais rapido possível.

Uma outra vez, tendo de julgar um concurso musical entre Apolo e , Midas cometeu o erro de prejudicar Apolo, que fez crescer orelhas de burro na cabeça do juizinho mal encarado. Midas ainda tentou esconder suas orelhas de burro com um turbante, mas foi obrigado a contar ao cabeleleiro sua asneira vergonhosa. De tanto rir, porém com medo de represálias, o cabeleleiro murmurou a notícia num buraco que ele tinha cavado, para logo tapar novamente.

Mas as rosas, ao crescerem, espalharam a notícia e todos ficaram sabendo.

8.06.2009

Repescagem

Calma Bruno
Pára, não vá

Para quê tanta pressa?

Não, não vá.
Sem chinelos
Um robô anda por lá

Não, não vá!
Uma coberta,
Pura lã
Cobre os ombros das modelos
Ocidentais

Não Bruno, deixa estar
Um frio de ferro corta o peito dos que sofrem
Pelas moças
Acidentais

Casas perfumadas se espalham nos ouvidos
finos,

Ruídos se escutam
As paredes racham

E ratos,
Brancos de medo

Saem correndo, moendo e roendo
Os tapetes do teu castelo
Nobre refúgio de um cavaleiro sem arma
Sem cavalo e sem mulher
Não vá

Não é tua culpa, Bruno
Se os caixões estão mais leves
Que almas vivas, já penadas

Calma Bruno
Pára

Em cima de que leite derramado
Você vai ainda chorar?

Não vá

No carnaval

Vamos brindar!

José Mário Branco: FMI

Um presente para os que não conhecem este texto:uma pessoa linda e muito querida me mostrou isto, e este é meu esforço para partilhar coisas boas.

Tive a idéia de inaugurar assim uma série de sons de revoluções. Já não sei dizer onde ouvi, que, segundo um militante republicano na guerra civil espanhola, os progressistas perderam, mas tinham pelo menos as melhores músicas.

Para os amigos brasileiros: pode ser que vocês a certa altura não vão entender patavinas. Portanto este link pode ser útil. Os interessados encontrarão a segunda parte de FMI.

E para todos um abraço





Não desespere,
Nada me supera
Quando não espero o trem passar

Mordendo a água que bate no sal
Que bate no sol
Que bate em todos os nós

Eu rí

Onde tudo é grande para um
O universo não está só

São miragens: tudo bem
Meu ideal

É um pantanal

Aniversário da Rosa de Hiroshima




7.11.2009

Os dolares do G8

Os caridosos e carinhosos líderes mundiais decidiram destinar 20 mil milhões de dólares ao continente africano para o desenvolvimento e a luta contra a crise alimentar. Não é a primeira e nem será a ultima grande esmola, seguida de alertas contra a corrupção inerente dos governantes do continente mais pobre do mundo: "se vocês não souberem administrar a guita, a culpa é de vocês, nós fizemos a nossa parte".

Algumas pessoas reclamaram do título negativo deste blog... mas eu reivindico este pessimismo metodológico como sendo a melhor maneira para ver o que há por trás das mascaras carnavalescas que circulam fora de época. Um dia explicarei mais longamente sobre o sentido de "mundo louco e vida podre".

Não direi que se trata de hipocrisia.

Não direi que a soma de 20 mil milhões de dólares é ínfima, se comparada à que os próprios lideres alegres e serelepes deram de mão beijada aos bancos e especuladores que causaram esta última crise mundial.

Estes líderes que dizem não haver dinheiro do Estado para a segurança social em seus países, nem espaço para imigrantes cada vez mais ilegais, cada vez mais criminosos (vide a política italiana, laboratório do pior). Mas para armas, ha: rende e protege.

Não calcularei a seguinte soma: a de que o total do dinheiro (estimado pela ONU) que seria necessario para que todas as pessoas do planeta pudessem viver com um mínimo de dignidade - entende-se um simples tecto com condições higiénicas e o consumo mínimo de calorias para uma vida saudável - é igual ao valor total do que os países da Europa e os Estados Unidos consomem juntos em perfume.

Direi, sim, que se trata de ideologia. E esta ideologia pode ser lida nos discursos anti-capitalistas de Sarkozy; ou no estilo de vida de um Georges Soros (que especula metade do dia, e na outra dedica-se a acções humanitarias), ou de um Bill Gates, o maior filantropo da historia depois do rei belga Leopold II (que promoveu um verdadeiro holocausto exploratório no Congo, sua propriedade particular, enquanto fazia aqui e ali suas boas acções). Ela pode ser vista nos discursos de Davos, ou do prórpio G8, cada vez mais parecidos com os de Porto Alegre. Ela pode ser vista na prática da Starbucks, onde podemos "salvar uma criança" comprando lá um copo café por 4 euros. Café, este, plantado por camponeses guatemaltecos que não ganham um cêntimo de dólar por kilo de café colhido, e vivem com menos de um dólar por dia.

Se trata de ideologia justamente porque os próprio doadores realmente pensam que estão a cumprir actos heróicos. São boas intenções.

Porém, a condição de pedinte de esmolas não é louvável. Não se pode incentivar a doação para o alivio de consciências distantes. Talvez seria melhor reconfigurar o tabuleiro do comércio internacional. Pois a condição históricamente forçada de exportadores de matérias primas cultivadas em monoculturas, é a verdadeira sujeição que gera a mão da fome, extendida para receber essas mesmas esmolas.

Afinal, não é que os pobres coitados não sabem se virar sozinhos. É que não os deixam.

7.09.2009

BLU - MUTO

O que faz um certo grafiteiro de Buenos Aires com algumas tintas, uma maquina de filmar, bastante paciência e muito talento?




5.12.2009

A Santa Sé e a Shoah


Pouco foi dito na visita do Papa Bento XVI a Israel. Não que os jornais não tenham mencionado tal viagem, pelo contrario foi coisa muito falada, porém na ordem do "falou e não disse nada". Esta imagem da foto seria uma alegoria de como se deve comportar em diplomacia, ou de como a Igreja encara sua historia?

Praticamente todos os jornais relataram aquilo que era de se esperar da visita. Como qualquer chefe de estado que discursa em Jerusalém, ele reiterou a esperança de ver um dia a paz no oriente médio (pedindo também a criação de um estado palestino, praxe usual e sem consequencias - bla bla bla). E como chefe espiritual, lembrou os mortos pela Shoah em meio a pedidos de maior tolerancia religiosa e social nos dias futuros. Tá bem, outro bla bla, apertemos as mãos, vamos para casa que amanhã teremos outras noticias inúteis.

Mas este artigo me chamou a atenção. Os diretores do Museu do Holocausto manifestaram decepção quanto ao discurso de Bento XVI. Recito-os:

- "Houve algumas coisas que não foram mencionadas no discurso do papa"
- "o papa anterior mencionou que os assassinos foram os nazistas, e, no caso de hoje (segunda-feira), não foi dito quem foram os assassinos, não se mencionou nem os nazistas e nem os alemães".

Entendo estas decepções, mas creio que elas estão muito mal direcionadas. A omissão de Alemanha nazista em nada me surpreende, principalmente sabendo que Ratzinger, além de ser alemão (ou melhor, il pastore tedesco) também foi membro da juventude hitlerista - coisa obrigatória no Reich. Não perderia meu tempo procurando as raizes de qualquer simpatia nazista por parte do Papa, pois teria então de falar da Opus Dei e acho que isto não entra muito em questão. De qualquer maneira, queria apenas ressaltar que, visto que o proprio personagem ja foi membro das "forças do mal", não é de se espantar que ele tenha no mínimo deixado de dar nome aos bois da historia.

Mas é de outros bois da historia que eu queria falar. Pois o que me espanta é o silencio total em torno da (ir)responsabilidade da Santa Sé durante e depois da Shoah. Eu não compro a idéia muito difundida de que a Igreja tenha colaborado diretamente no extermínio de judeus nem a de que Pio XII era nazista. Porém, sabe-se que a Igreja pouco fez ou não fez nada para proteger da maneira que podia os judeus que estavam sendo levados para campos de concentração e de extermínio. Sabia-se alias, e muito bem, das praticas de extermínio (é rara qualquer informação que não chega ao Vaticano), e a Igreja tinha, como tem e sempre teve, redes e infraestruturas suficientemente sólidas para proteger pelo menos os judeus de Roma e seus arredores, montando assim muitas "listas de Schindler". A prova disto é que sabe-se, também, que depois da IIº guerra mundial, foi graças a uma complexa rede de contra-infromação montada pelo Vaticano que muitos oficiais da Waffen-SS fugiram para o exterior, principalmente para America do Sul (leia-se Argentina, Brasil e Uruguai, o Cone-sul).

A Igreja não tem mãos limpas na historia da Shoah e muito precisaria ser descoberto sobre isso. Não é a toa que os arquivos do Vaticano são dos mais dificeis de ser penetrados. Para ter tal autorização, pouquissimos iminentes historiadores da École de Rome passam por varios testes (leia-se processos seletivos de confirmação ideológica segura para a Santa Sé) antes de poderem entrar em corredores já previamente monitorados e cuidadosamente manipulados. E mais: depois da morte de um Papa, abre-se os arquivos do periodo que não corresponde ao do sacerdote defunto, nem do anterior, mas do penúltimo. Isso quer dizer que foi só com a recente morte de João Paulo II que algumas pessoas começaram a vasculhar os documentos do periodo de Pio XII. Ficarei a espera de bons resultados de pesquisa.

Agora, o que eu achei engraçado foi ter lido sobre outra manifestação de repudio contra o Papa em Israel, mas desta vez por parte de judeus ultra-ortodoxos. Manifestação no sentido de expressão, e não passeata, pois não deviam ser mais de meia-duzia. Diziam em seus cartazes coisas ultra-ortodoxas. Mas com um pouquinho de razão.

4.12.2009

I Can't Stand Myself

Um PoucO DE jAmes CHancE anD ThE COnTorTiONs




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2.24.2009

Desencontros


Os dedos amarelados de uma mão tremida tocam play num toca fitas. Seguem-se essas palavras:

«Sempre gostei dos meus sonhos. Não, nunca tive nenhum problema com isso, é uma das poucas coisas com as quais eu me preocupo, quero dizer, dou importância, mas não tenho medo de pesadelos. Quando acordo, antes de levantar fico deitado alguns minutos, e a lembrança do sonho aparece. Monto um quebra-cabeça. No começo é dificil, agente vai se acostumando. Acredito que quando nos levantamos com pressa o sonho escorre pela coluna e se perde no primeiro reflexo, tipo aqueles automatismos, sabe? Aprendi isso com uma pessoa que ia muitas vezes pra Índia. Acho que ela era seguidora de um guru qualquer, daqueles que não comem e materializam uma serie de coisas para oferecer aos adeptos. Não acredito nessas coisas, mas nos sonhos sim. Para mim eles revelam muitas coisas, não do jeito freudiano, mas coisas de espírito mesmo. A Índia deve ser um bom lugar pra se viver, parece que as pessoas lá estão dispostas a acreditar em quase tudo. Será que isso é bom? Ah, sim, então, os sonhos. O que me impressiona mais é o sonho lúcido, aquele em que sabemos que estamos sonhando. Geralmente, quando isso acontece, agente acorda. Mas eu aprendi a controlar a lucidez no sonho, e ai as coisas ficam mais fantásticas. Sou capaz de fazer aparecer uma linda mulher, voar, trazer amigos do passado, acordar defuntos, conversar com eles. Já te aconteceu uma coisa parecida? Ah, mas você tem que tentar! Como assim, pra você isso não é tão importante? Hein? Ta certo, sei que você não tem muito tempo agora, mas deixa eu só, perai, tenho aqui algumas anotações, sabe que as vezes eu escrevo meus sonhos, espera um pouco, não tô achando, deve tar no outro bolso, ah, ta aqui. Então, deixa ver, esse aqui é bom, acho que faz um mês que escrevi isso, vou ler porque minha letra é meio porca, e eu prefiro interpretar. Pronto, um corredor de plantas, bonitas. Na verdade, eram trepadeiras por todos os lados, um ambiente verde claro, e uma paz ao redor. Avanço. Percebo que o jardim vai clareando... O que? Não, mas espera só cinco minutos, a estória é fascinante, você vai gostar. Bom, tudo bem, devo é estar te chateando com tudo isso. Mesmo? É a única versão que eu tenho, ainda não passei pro computador, mas quando o fizer te mando por e-mail. Bem, senão, deixa ver... Posso confiar em você? Não sei, não costumo confiar nas pessoas, nada contra você, é que tenho alguns traumas com isso, sabe que uma vez confiei tanto numa pessoa que... ta bem, desculpa, mas olha, finalmente acho que você pode ficar com esse caderno, vai servir pro teu trabalho, com certeza. E você me parece uma pessoa muito correta, não vai fazer besteira. Parto hoje pro interior e só volto semana que vem, te ligo quando chegar pra vir buscar o caderno. Sim, claro que pode ficar com ele, mas não mostre pra ninguém, por favor. Pois é, também vou indo. Obrigado por tudo, da próxima vez sou eu que te convido. É muito bonita a sua casa, gostei daqui, esses quadros são de quem? Hum, nunca ouvi falar, mas são bonitos. Me diz uma coisa, é pra que esse trabalho afinal? Sei. Não entendo muito dessas coisas, na verdade sou pouco sabido, só sei de sonhos, desse tipo de coisa não sei nada. Mas acho que você vai gostar de conhecer a minha casa, ela é bem menor que essa aqui, mas tem uma varanda no meu quarto. É, é lindo. Também, já vou indo, você parece estar apressado e eu aqui te atrasando. Sabe, no meu trabalho eu... tá bem, já sei, me desculpe pela tagarelice, mas afinal foi pra isso que você me chamou não foi? Sim, fica pra proxima. Olha, prazer em conhecê-lo, é por aqui? Então ta, até a próxima, adeus!”

A mão, cada vez mais lenta, ia parando a fita intermitentemente. Agora, ela para, avança, e toca:

“Te incomoda se eu fumar? Pois é, tive três mulheres ao mesmo tempo. Claro que não, nenhuma delas podia saber das outras, alias esse era o meu problema, passei por maus bocados e muitas peripécias pra manter as coisas em ordem. Pelo menos não dormia sozinho. No final não dava mais, era muito perigoso trazer uma pra casa, eu tinha que evitar andar com uma pelo bairro de outra, e o pior era quando na cama com Taís eu chamava por Charlotte, e à Charlotte eu chamava Rosa. Coisa de excitação, trocava as bolas. Isso mesmo, pura sacanagem. Semprei gostei muito de aventuras, sou caçador de saias desde que nasci, alias, olha essa dai passando, que bela obra de Deus, hein? Não, calma, não olha assim com cara de cruz credo, que você assusta a moça. Tem de se jogar com discrição e honestidade, olho no olho, mas sem intimidar, como quem não quer nada. Sem querer querendo. Não se pode também ficar perplexo como quem viu a Virgem, ninguém é virgem com essas pernas. Tem é de mostrar curiosidade. Muita curiosidade. Desvie o olhar as vezes, mas sem fugir do olhar dela, dando a impressão de que tem coisas mais importantes pra pensar. Se ela te olhar mais de três vezes, vai, mas com firmeza. Passa pra segunda marcha, a aproximação. Ai não tem mais regra, só arte. E sendo sincero, claro, se não tiver nada pra dizer, diz isso mesmo, muita mulher gosta de homem tímido. Se o papo for bom, passa pra terceira, o toque da mão. Infalível o toque da mão, pois se ela não gostar do toque, não é tão mal, terá sido um fora por fora, um subentendido que não fere ninguém. Sem desaforo. Agora, se ela se aconchegar, pode passar pra quarta, que a quinta é na cama. Depois, percebe-se com a experiência que tem algumas que não dão o braço a torcer, mas que no fundo querem mesmo é que você force a barra. Essas são as melhores, mas não são pra qualquer um. Enfim, tem muita mulher difícil por ai, mas nenhuma é impossível. Todas querem, esse negocio de mulher fiel ao marido ou sem desejo é mito, não existe, só faixada...

A mão suada para a fita, avança, e toca novamente:

Então. Foi triste. Eu disse que não amava mais ela, foi choradeira pra cá, gritaria pra lá, nada de estranho, mas triste. Ela demorou pra se recuperar, mas acabou encontrando um homem correto, médico, burguês, rico, bonito. Parece com você. Bom pra ela, de novo. Fiquei puto! Nunca achei que isso fosse acontecer, senti ciúmes, acho que é por que o cara é bem sucedido, e eu aqui, desempregado, já to chegando aos cinqüenta, enfim, c’est la vie. Se paquera rendesse, eu tava hoje mais rico que o sultão de Brunei. Nasci no lugar errado, devia é ter vivido por essas bandas onde poligamia não é crime. Pois é, foi assim, e é assim que tem de ser. Mulheres. Não posso viver sem, uma só também não me basta. Não presto mesmo. Como você escolhe teus entrevistados? Estranho, não imagino ser uma pessoa assim. Faça o que quiser, cada um sua esquisitice. Mas fico lisonjeado, nunca ninguém tinha me pedido coisa assim. Obrigado, sempre fui sincero. Ta certo, mas como nos encontramos quando isso estiver pronto? Eu sempre ando por aqui, se não me ver é só perguntar por mim. É isso. Pedimos a conta?”

Irritada, a mão abre o toca fitas para verificar um problema inexistente, depois o coloca de novo para funcionar. Agora a mão parou para ouvir:

Voltou a fita? Grava. Não sou mulher fraca, não to aqui para pequenos casos e conversas que dizem que as mulheres são sensíveis e inconstantes. Sim, mas as mulheres só são assim porque sempre foram oprimidas. Na verdade não é tão simples assim. As mulheres são muito machistas em geral. Pois é, o sistema de opressão numa sociedade tão grande só pode ser assim. Eu to irritada. Para a fita. Volta. Não pode voltar? Senão eu me calo, e minha carona ta chegando. A ordem é mais eficaz quando os de baixo se auto-oprimem, pode dar play, sim. Ninguém é obrigado a se alienar, mas as pessoas sentem essa necessidade de entrar no jogo do poder, se submetendo a um sistema anônimo mais poderoso que qualquer um. Espetáculos, e lugares-comuns. É do interesse dos que têm poder que as pessoas se sintam impotentes. Rápido. Eu não tenho esse sentimento, acredito que somos livres para inventar o nosso destino. Ele não esta traçado, nada estava traçado antes de qualquer coisa existir. É muito mais gostoso acordar e topar com coincidências que são presentes que você se proporciona. Eu? Fiz um ano de filosofia e larguei a faculdade. Problemas maiores, mas não era isso que você queria que eu contasse, não é? As coisas boas ou ruins são invenções, e a opressão não é de natureza humana. Como? Ta bem. O que nos condiciona é uma criação variada do próprio homem. Quem me dera poder brincar de Deus. Uma das minhas frustrações é a de não ser artista. Preciso criar alguma coisa. É isso, produzindo menos e criando mais, seríamos mais felizes. Qual outra procura senão a da felicidade? A dos outros também. Ninguém pode ser feliz sozinho. Pelo menos não por muito tempo. Pode parar por favor? Não, eu quero continuar, mas eu to me sentindo sufocada pelo teu gravador. Não to chorando não, é normal, isso sempre cai. Um dia eu acordei e na mesinha de cabeceira tinham quatro gotas de alguma coisa que eu não sei o que é. Não sei se eram lagrimas, não sei se eram minhas, tive medo de experimentar. Queria falar de mim, sinceramente. Saí de uma clinica há uns meses, acho que vou voltar. Não, não é por isso. É para fugir do meu marido e desse mundo. Claro que sim, ou você acha que o que tenho no olho são olheiras. Conheci-o na casa da minha melhor amiga, nos tempos de colégio. No final. Não. Mas ela estava muito apaixonada por ele. Nós entramos juntos na faculdade, ele estudava arquitetura, mas sempre foi um desgraçado, um filho da puta. Hum. Faz dois anos que ele começou a me bater. No começo eu pedia, na cama não, na briga mesmo, mas era a única maneira que eu encontrava pra acalmá-lo, e guarda-lo para mim. Polícia, nem pensar. Eu o amo. É, eu sei. Mas eu vou voltar para a clínica, ou fugir, mas não posso dizer que é ele quem me bate. Não. É um suicídio temporário. Quero. Chega, e você? Conta mais. Não, para outro dia não vai dar. Eu sei, fingir eu não vou conseguir. Mas posso fugir, por uns tempos, dizer que eu to em qualquer lugar. Sei lá. Meu marido ta chegando, se ele me ver com alguém. Não quero isso agora. Mas guarda nossa conversa para mim, de sextas estou aqui. Vai. Ah, você tinha mesmo parado a fita?..”

A fita parou de rodar. Era preciso, mais uma vez, trocar de lado ou mesmo de fita, mas Ricardo, ao ouvir pela enésima vez a voz de Isabel, sentia-se afogado para sempre na amargura. E não sabia bem o que fazer.


O Estado e o Terror?




Pois. Pois é. Obama chegou, a crise ta ai, eu estava feliz, mas veio Israel e matou tato que tirou toda a inspiração que eu tinha para continuar a escrever. Agora é carnaval, "Não me diga mais quem é você...", fiquei em casa, aluguei uns filmes e estou muito satisfeito! A obrigação de estar feliz ou pelo menos de ter de compartilar a euforia coletiva me irrita. E a cidade de São Paulo fica muito mais agradável quando está vazia. Para voltar a falar um pouco sobre guerra, me deparei hoje com um pedaço de texto escrito por Friedrich Nietzsche, que é curioso: se não fosse assinado, poderia pensar que fosse uma análise jornalística contemporânea sobre o Estado na geopolítica atual da "guerra contra o terror" e seus ataques preventivos - aquela dO Inimigo espectral, sem centro, invisível, fantasmático, perigoso e sem sentido:

Nenhum governo admite mais que mantém um exército para satisfazer ocasionalmente o desejo de conquista. Antes, o exército supostamente serve para a defesa, e invoca-se a moralidade que aprova a legítima defesa. Mas isso envolve a moralidade própria e a imoralidade do vizinho; pois é preciso que seja o vizinho ansioso para atacar e conquistar afim de que nosso Estado pense em meios de legítima defesa. Além disso, as razões que damos para a necessidade de um exército implicam que nosso vizinho, que nega o desejo de conquista tanto quanto nosso estado e que, por sua vez, também só mantém um exército por questões de legítima defesa, é um criminoso hipócrita e astucioso que simplesmente gostaria de sobrepujar sem luta uma vítima inofensiva e desajeitada. Portanto, agora, todos os Estados se alinham uns contra os outros: pressupõem as más intenções do vizinho e suas próprias boas intenções. Entretanto, esse pressuposto é inumano, tão mau quanto a guerra e até pior. Fundamentalmente, de fato é ele mesmo o desafio e a causa das guerras, porque, como disse, atribui imoralidade ao vizinho e, portanto, provoca intenções e atos hostis. Devemos abjurar tão completamente a doutrina do exército como meio de legítima defesa quanto o desejo de conquista.

1.19.2009

De Sangue e de Números



Em A Lista de Schindler, filme em preto e branco, podemos notar em raros momentos (creio que dois), a passagem de uma pequena garota de vestido vermelho, uma figura anônima e passageira que vem manchar a cena em segundo plano. E ela é discreta. Podemos ver esta passagem à partir de dois ângulos. O primeiro, com o sentido comum da cor escarlate que representa o sangue - sinal de vida em meio a desesperados que perderam suas cores e almas tentando fugir do holocausto, ou de morte, de sangue derramado. Porém, indo um pouco mais longe podemos simplesmente notar o fato da sua singularidade: qual seria o destino daquela menina de vestido vermelho, daquela pessoa? Uma cor fugitiva e apelativa das pulsões de morte (que se opõem ao desejo no sentido mais restrito), não deve ter passado por acaso, e pode nos dizer muita coisa.

Passemos aos números. Invoquei a imagem da menina do filme de Spielberg, não somente por causa da mesma cor dos litros de sangue derramados na Faixa de Gaza. Mas também porque me faz lembrar um argumento hobsbawmniano de que, para um mero espectador distante e impotente de fatos que lhe comovem, uma história simples (por exemplo, o mártir singular do vestido vermelho de sangue, ou de outra criança judia ou palestina, genuinamente inocentes) provoca muito mais impacto do que números: mais de mil palestinos morreram, sendo um terço deles, crianças. Causa impacto, é terrível, e lastimável. Mais impacto ainda causaria o conhecimento por completo da vida curta e dura de apenas uma dessas crianças mortas soterradas, bomardeadas, esmigalhadas, ou de uma das suas mães. Acompanho aqui o raciocínio de Hobsbawm, para quem a tecnologia da destruição desenvolvida no século XX (ou o instrumento da barbárie) permitiu tal distância entre o assassino e sua vítima, que ficou muito fácil matar, e em massa - lembrando um de seus argumentos, de que é provável que o piloto que lançou a bomba de hiroshima e matou milhares de pessoas em segundos, seria incapaz de enfiar uma faca na barriga de uma mulher grávida.

Creio que a verdade deve ser trabalhada, ela não é intocável (apesar de Victor Hugo ter dito que a verdade é como o sol, sabemos que ela existe, mas não conseguimos olhar para ela). Se o sol ofusca, usemos óculos escuros. Por falta de método ou compromisso voluntário não estou, neste blogue, praticando nenhum exercício estrito de ciência social, e nem tenho esta pretensão. Compartilho a idéia weberiana de separação entre ciência e política (crendo no entanto, que sejam dois lados de uma mesma moeda), e esse é meu espaço político. Aproveito este espaço para dizer qualquer coisa sobre a atualidade do pensamento único: a crítica pós-moderna das ciências e da verdade-enquanto-construção-parcial-de-fatos-que-são-apenas-versões, o extremo-centrismo, o em-cima-do-murismo, são os sintomas precedentes à crise. E são a própria crise, o vazio a ser preenchido. Para ultrapassar esta barreira, é preciso assumir a parcialidade, e passar para a próxima fase, que é a de construção. Para isso, é claro, é preciso refletir olhando para trás, pois é um momento de recuo estratégico que requermuita disciplina.

Voltando ao Sangue e aos Números:

A verdade que ofusca nossa visão, seria ela a soma inalcansável, no plano sensível, dos terrores singulares ocorridos recentemente em Gaza? Caso seja, eis então o labirinto pelo qual percorremos à procura de algo, alguma coisa viva que daria sentido ao vôo assustado do anjo da história. Devemos percorrê-lo de maneira racional. Em que medida este minotauro escondido se espelha em cada um de nós, e é universal? A procura de sentido é um movimento do singular ao universal que podemos alcançar com nosso conhecimento.

Por exemplo: e se invertessemos o discurso jornalístico comum de que esta guerra, ou qualquer outra, é desumana? Admitir e encarar o fato de que a tortura e a barbárie são humanas é o primeiro passo concreto para uma melhor compreensão da história. E para a sua mudança: o que Hitler tinha de humano? Tudo, até demais.

De um ponto de vista reformista, eu diría que, para a paz no Oriente Médio, um grande avanço sería a laicização do Estado de Israel - e como leitura sobre a construção sionista da história de Israel enquanto terra exclusivamente judaica, proponho os textos de um excelente historiador judeu chamado Shlomo Sand.

Mas como em 2009 acordei com ressaca desse Mundo Podre, bato os pés com a convicção de que enquanto o Estado de Israel existir nesses termos, não haverá paz. Naquele canto.


PS: voltei, menos poeta e mais político, mas voltei depois de um mês para este diário de só mais um maluco.